Vertiportos e a nova fronteira da mobilidade urbana no Brasil

Testes da Embraer e estudos da Urban Systems em São Paulo colocam o país no radar da aviação urbana e abrem um novo ciclo de transformação imobiliária

O que até pouco tempo parecia um conceito distante começa a ganhar forma no Brasil. A mobilidade aérea urbana, baseada nos eVTOLs (aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical), também conhecidos como “carros voadores”, avança rapidamente, impulsionados por testes bem-sucedidos, novos marcos regulatórios e pelo interesse de operadores internacionais em estruturar vertiportos no país. Para se ter ideia, a Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) realizou recentemente o seu primeiro voo teste com esse tipo de aeronave, um movimento que confirma que a mobilidade aérea urbana está deixando o campo das projeções para entrar na fase operacional.

De acordo com Paulo Takito, sócio-diretor da Urban Systems, a expectativa é que 2026 seja marcado por uma intensificação dos voos de teste no país e no mundo, enquanto 2027 será o ano em que os principais fabricantes globais já deverão estar homologados para operações comerciais. “Aquilo que imaginávamos alguns meses atrás já começou a acontecer. Os testes da Embraer mostram que a mobilidade aérea urbana deixou de ser uma promessa distante e passou a ser uma realidade em construção”, diz Takito.

Ele destaca que, hoje, a Urban Systems está diretamente ligada a estudos para a implantação de vertiportos em São Paulo, assessorando uma empresa internacional interessada em desenvolver essa infraestrutura no Brasil. Os levantamentos analisam diferentes áreas da cidade, especialmente em eixos comerciais e polos de emprego, onde já foram identificados imóveis com potencial para receber esse novo tipo de equipamento urbano. As análises consideram critérios como densidade urbana, acessibilidade e capacidade de atender a um fluxo significativo de passageiros.

“Bairros excessivamente horizontais, por exemplo, tendem a não atender aos requisitos desse modelo, que demanda concentração de atividades, pessoas e serviços. Vertiportos precisam estar onde a cidade pulsa. Densidade, bons acessos e proximidade com polos de emprego são fatores-chave para viabilizar essa operação”, explica Takito. Nesse sentido, São Paulo parte em vantagem, pois a cidade já abriga uma das maiores frotas de helicópteros do mundo, tem corredores aéreos bem definidos e uma cultura consolidada de mobilidade aérea executiva, fatores que facilitam a transição para os eVTOLs.

Um novo padrão de deslocamento

Um dos principais diferenciais dos eVTOLs é a redução considerável do tempo de deslocamento. Exemplo: um trajeto como Faria Lima–Guarulhos, que pode levar mais de uma hora nos horários de pico, tende a ser feito em cerca de 10 minutos com a novidade. Segundo o sócio-diretor da Urban Systems, o custo estimado desse voo gira em torno de R$ 500 por trajeto, valor significativamente inferior ao do helicóptero tradicional, que pode chegar a R$ 2.500 por pessoa para o mesmo percurso. Embora mais caro que aplicativos de transporte terrestre, a economia de tempo torna o serviço atrativo para um público amplo.

“Quem paga R$ 200 de Uber ou Taxi em um dia de trânsito pesado tende a pagar R$ 500 para economizar quase uma hora de deslocamento. O tempo passa a ser o ativo mais valioso”, observa Takito. Ele complementa que, com a evolução para voos autônomos, prevista para a próxima década, o valor por viagem pode cair pela metade, ampliando o acesso e acelerando a popularização do modal.

Aerotrópoles e valorização imobiliária

Mais do que uma novidade tecnológica, os vertiportos representam um novo vetor de desenvolvimento urbano, logístico e imobiliário. O conceito se conecta diretamente à ideia de aerotrópoles, que analisa como a conectividade aérea influencia o avanço econômico e desenvolvimento urbano das cidades. Vale lembrar que, ao longo da história, diferentes modais fizeram parte desse crescimento: portos na era da navegação, ferrovias na industrialização, rodovias com a expansão do transporte rodoviário. Estas infraestruturas de mobilidade foram fundamentais no surgimento e desenvolvimento das cidades. E agora, a conectividade aérea assume o protagonismo. O efeito tende a ser semelhante ao observado em estações de metrô e corredores de transporte público: a valorização dos imóveis no entorno. “A presença de um vertiporto reduz a percepção de distância, especialmente para públicos de média e alta renda, suavizando diferenças de preço entre áreas centrais e regiões mais afastadas”, analisa o sócio-diretor da Urban Systems.

Além de passageiros: cargas e novas receitas

Mais do que transportar pessoas, Takito pontua que os vertiportos devem desempenhar papel relevante na logística de cargas leves e de alto valor, como insumos médicos, órgãos para transplante e equipamentos que exigem rapidez no deslocamento. “Essas estruturas também demandam grande capacidade de fornecimento de energia elétrica, já que o carregamento das baterias dos eVTOLs será intenso. Em centros urbanos densos como São Paulo, a energia virá majoritariamente da rede, exigindo reforços e planejamento específico”, prevê o executivo.

Outro ponto em análise são as receitas acessórias, como estacionamento de veículos, áreas de conveniência e serviços, reforçando o vertiporto como um equipamento urbano multifuncional. “Esses terminais serão, na prática, as estações do futuro, com controle de acesso, check-in rápido e uma operação altamente tecnológica”, conclui Takito.

Com estudos em andamento, testes avançando e operadores globais de olho no Brasil, os vertiportos deixarão de ser um exercício de futurologia e passarão a integrar o planejamento das cidades e do mercado imobiliário nos próximos anos.

Conteúdo elaborado pela redação Urban Systems.

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